O Dia da Sobrecarga da Terra marca a data em que a demanda da humanidade por recursos e serviços ecológicos em um determinado ano excede o que a Terra pode regenerar naquele mesmo ano

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"O volume das atividades antrópicas precisa ser reduzido para evitar um colapso ambiental. Reduzir o consumo conspícuo, assim como as emissões de CO2, é essencial para garantir, no longo prazo, sobrevivência da humanidade. Todavia, um assunto mais controverso é o debate sobre a necessidade de redução do volume da população global que deve chegar a 8 bilhões de habitantes em 2023", escreve José Eustáquio Diniz Alves, demógrafo e pesquisador em meio ambiente, em artigo publicado por EcoDebate, 28-07-2021.

Eis o artigo, respostado no IHU

Dia da Sobrecarga da Terra marca a data em que a demanda da humanidade por recursos e serviços ecológicos em um determinado ano excede o que a Terra pode regenerar naquele mesmo ano. Em 2021, o Dia da Sobrecarga ocorreu ontem 29 de julho. No restante do ano, os seres humanos vão viver no “cheque especial” ecológico.

Em comemoração ao Dia da Sobrecarga e ao Dia Mundial da População (que ocorreu em 11/07/2021), o respeitado economista ecológico, Dr. William Rees, proferiu uma palestra sobre a questão da Sobrecarga da Terra, com o seguinte título: “O que é uma população sustentável? Por que, quando e o que devemos fazer sobre isso?

O Dr. Rees foi um dos oradores nesta discussão de alto nível envolvendo os principais cientistas europeus que estão discutindo o que é um ‘tamanho da população humana cientificamente defensável e sustentável a longo prazo’, conforme solicitado no Aviso dos Cientistas Mundiais à Humanidade (Um Segundo Aviso foi emitido em 2017 por mais de 15.000 cientistas). Depois de sabermos o tamanho correto da população, a questão é como devemos chegar até lá e quando? O alerta de 2017 também apelou à união das nações e líderes para apoiar esse objetivo vital em termos de tamanho da população.

Como vimos, o Dia Mundial da População é comemorado no 11 de julho. No Alerta, a população também está incluída como um dos 6 fatores de estresse no Alerta dos Cientistas Mundiais sobre a Emergência Climática, emitido em 5 de novembro de 2019. Conectado a este Alerta dos Cientistas, a Europa acredita que as Nações Unidas (ONU) devem incluir uma meta populacional cientificamente determinada em seus ODS. Esta parece ser uma fraqueza preocupante na lista atual de ODS, já que muitos deles são, em qualquer caso, dependentes ou afetados por níveis globais de população e consumo conectado.

O volume das atividades antrópicas precisa ser reduzido para evitar um colapso ambiental. Reduzir o consumo conspícuo, assim como as emissões de CO2, é essencial para garantir, no longo prazo, sobrevivência da humanidade. Todavia, um assunto mais controverso é o debate sobre a necessidade de redução do volume da população global que deve chegar a 8 bilhões de habitantes em 2023. Como reduzir a população para a casa de 2 bilhões de habitantes?

Sem dúvida, o caminho passa pela redução das taxas de fecundidade que é um fator decisivo para o futuro do volume da população. Para conhecer os cenários demográficos futuros, pesquisadores do International Institute for Applied Systems Analysis (IIASA), na Áustria, realizaram projeções de longo prazo (2000 a 2300) da população mundial. As projeções por idade e sexo levaram em consideração um amplo conjunto de hipóteses de fecundidade e três cenários de mortalidade com base em expectativa de vida máxima de 90, 100 e 110 anos.

Em artigo publicado na Demographic Research, em 30 de maio de 2013, os demógrafos Stuart Basten, Wolfgang Lutz e Sergei Scherbov apresentam uma síntese do relatório. Vamos apresentar aqui o cenário de expectativa de vida de 90 anos (Eo = 90), segundo as variações na Taxa de Fecundidade Total (TFT).

população mundial em 2000 era de 6,05 bilhões de habitantes e a TFT era de 2,53 filhos por mulher. Caso a taxa de fecundidade se mantenha por volta de 2,5 filhos, a população mundial chegaria a 15,1 bilhões em 2100, 33,5 bilhões em 2200 e 71,0 bilhões de habitantes em 2300. Caso a TFT caia para 2 filhos por mulher, a população mundial chegaria a 10,3 bilhões em 2100, 9,9 bilhões em 2200 e 9,0 bilhões de habitantes em 2300. Uma queda da taxa de fecundidade para 1,5 filho por mulher faria a população mundial chegar a 6,8 bilhões em 2100, 2,3 bilhões em 2200 e 720 milhões de habitantes em 2300.

Ou seja, uma taxa de fecundidade em torno de 2 filhos por mulher faria com que a população mundial se estabilizasse, no longo prazo, em torno de 9 bilhões de habitantes. Meio filho (1/2) para cima, isto é, 2,5 filhos por mulher (equivalente à TFT do ano 2000) faria a população mundial saltar para 71 bilhões de habitantes em 2300 e meio filho para baixo, isto é, TFT de 1,5 filho por mulher, faria a população mundial decrescer para apenas 720 milhões de habitantes em 2300.

Portanto, uma taxa de fecundidade com meio filho acima do nível de reposição levaria a um grande crescimento da população mundial (algumas pessoas diriam “explosão populacional”) e meio filho abaixo da TFT de reposição levaria a um grande decrescimento da população (algumas pessoas diriam “implosão populacional”). Evidentemente, estes resultados teriam um grande impacto positivo ou negativo sobre o meio ambiente e o aquecimento global.

Mas o artigo da Demographic Research mostra outros resultados ainda mais impactantes das projeções de longo prazo. No outro extremo, uma queda da fecundidade mundial para 1 filho por mulher resultaria em um montante da população mundial de 4,4 bilhões em 2100, 370 milhões em 2200 e 30 milhões de habitantes em 2300, conforme tabela abaixo.

Em síntese, a população mundial em 2300 pode variar de 71 bilhões (na hipótese de TFT de 2,5 filhos por mulher) para 720 milhões de habitantes (na hipótese de TFT de 1,5 filho por mulher) ou praticamente chegar a zero (na hipótese de TFT de 0,75 filho por mulher). Pequenas variações nas taxas de fecundidade provocam grandes alterações no volume da população no longo prazo, quer se denomine o fenômeno da explosão ou implosão demográfica ou qualquer outro nome.

O fato é que o futuro demográfico está aberto e vai depender das decisões tomadas e efetivadas nas próximas décadas e das interrelações entre população, desenvolvimento e meio ambiente. Evidentemente, é impossível uma redução significativa da população no curto prazo. Mas no longo prazo as possibilidades são variadas. Por exemplo, uma taxa de fecundidade de 1,25 filhos por mulher faria a população mundial chegar a pouco mais de 2 bilhões de habitantes em 2150.

Assim, uma TFT global de 1,25 filho por mulher já seria suficiente para fazer a população mundial decrescer para 5,5 bilhões de habitantes em 2100 e 2,4 bilhões em 2150. Como sempre repete o ambientalista David Attenborough: “Todos os nossos problemas ambientais se tornam mais fáceis de resolver com menos gente e, em última instância, mais difíceis ou impossíveis de resolver com cada vez mais pessoas”.

O que a apresentação do Dr. William Rees (14/07/2021) fez foi fundamentar a necessidade do decrescimento da economia e da população. A alternativa é real e viável, resta saber se o mundo vai ouvir o alerta dos cientistas ou vai caminhar para uma Terra Inabitável.

Referências:

ALVES, JED. Projeções para a população mundial 2000-2300: o futuro está aberto, Ecodebate.

Kelley Dennings. People Think the World’s Population Is Growing Too Fast – So Why Can’t We Talk About It. Center for Biological Diversity, Ecowatch, 02/12/2020.

WILLIAM J R, et. al. World Scientists’ Warning of a Climate Emergency, BioScience, 05/11/19.

Stuart Basten, Wolfgang Lutz, Sergei Scherbov. Very long range global population scenarios to 2300 and the implications of sustained low fertility. Demographic Research, V. 28, Art 39, 2013, p. 1145-1166.

William Rees. World Population Day Presentation, Scientists Warning Europe, 14/07/2021.